Sexta-feira, 4 de Maio de 2012

Cair

O prazer de cair. Não falo de cair num abismo. Falo do cair da infância. O cair que leva a mãe a dizer: "João Miguel! Já viste como tens os joelhos?!?". O cair que faz crostas e manchas de mercúrio-cromo. Entretanto também nos desfizemos do mercúrio, faz cancro, dizem. A partir de uma certa idade já não se cai. Já não se brinca na rua. Já não se sobem árvores. Já não se joga à apanhada. Já não se cai. É algo que só volta, já tarde na vida e com consequências mais dramáticas, consta. O cair desaparece da rotina, insensivelmente. E puff. Já não se cai. É uma pena. Ontem caí. Estava a correr. Fez crosta no cotovelo. Soube-me pela vida.

Sábado, 28 de Abril de 2012

Mort

"La vieillesse est un long combat en retraite contre la mort. Et bien qu'on soit assuré, à la fin, d'être vaincu, on se doit à soi-même de combattre pied à pied avec une entière résolution et s'il se peut, en se tenant en joie."

Fortune de France - La volte des vertugadins, Robert Merle, ed. de fallois, 1991.

Tragédia Boa ou a Metáfora do Quivi

(se possível, completar a prosa em falta deste magnífico título)

Terça-feira, 24 de Abril de 2012

Noctivagar sentado

Caracterizar o prazer da calma noite por palavras. No limite do estúpido. Tentemos. O silêncio, sereno e pacificador benfeitor para almas de alguma tormenta. O barulho do dia é tão intenso, numa cidade, que devia de haver postos de silêncio espalhadas pela urbe para os aflitos de sons. Dificilmente se passam bons momentos consigo próprio, sem um silêncio de quando a quando. Até os barulhos ganham outra cor, quando enquadrados numa moldura silenciosa. O carro a passar. Ao longe, perto e ao longe de novo. E depois nada. Contentamento. Uma gargalhada de mulher com o seu indutor ao braço. Longe, perto e longe de novo. Uns passos no andar de cima. Provavelmente, uma bexiga idosa a pagar a vida que passou. Uma porta mal apetrechada que assinala a corrente de ar. Depois, esporádicos, sons incaracterizáveis. Talvez tenha sido a mala de um carro a ser fechada. Talvez não.

(barulho é uma palavra incivilmente estranha. faz de conta que não falas português. agora na pele dum estrangeiro, pronuncia-a, devagar. parece o nome de um animal quadrípede comum mas não doméstico, não? Regarde le "barulho" qui monte à l'arbre! Do you see the "barulho" picking the trash? Estes barulhos são uma praga na cidade. Pior que as gaivotas!)

Segunda-feira, 2 de Abril de 2012

Grito na conversa ii

É difícil. Até caracterizar! Quanto mais compreender.. Como um rio que invade o peito. Águas desvairadas. Sua força puxa, aleija. É tão incompreensível que esboçar uma reacção, fosse qual fosse, não passa pela cabeça.

É um grave, puxado. Acompanhado de estalidos metálicos que prendem na carne. O limiar entre dor e incómodo. O olhar cegado pela luz do sol cuja visão está a voltar. Algures nessa banda de cinzenta indefinição.

Algo assim. Não sei. "My Kingdom for a horse!" I dare you.

Quinta-feira, 29 de Março de 2012

Huile Parfumée de la Vallée de la Sagesse

Yeux d'amandes, cheveux en bataille, ne vous laissez pas désarmer par son air fragile. C'est une force de la nature que cette femme! Intelligence aiguë et perspicacité désarmante. Le dialogue rapidement se transforme en joute verbale et elle vous laisse la tête qui tourne. Croyez-moi, le vieille adage qui dit "ce que femme veut, dieu le veut" ne fut composé que pour s'appliquer à elle. D'un excellent goût, elle s'habille pour vous plaire, peut-être, mais pour se complaire surtout. Vert d'une jupe, les rayures d'une blouse, manière de mouler un corps de nymphe fait pour les caresses. On ne peut supposer que sa peau laiteuse ne soit de la douceur de la plus fine des soies. Faible description, bien le sais-je, mais sa coquetterie ne m'accorde qu'un accès restreint. Peut-être cette prose la fera changer d'idée.

Segunda-feira, 26 de Março de 2012

Vous serez pécheurs d'Âmes.

Pelas volutas de fumo do cigarro escapam-se as preciosas horas de sono. A batida de música tirita-me na cabeça e é impossível libertar-se da doçura melancólica das palavras entoadas. Lamentarei a calma mas o que é a vida senão sentir? E o que é sentir senão tempestade? O pescador de ilusões profecia a sua pesca e eu deixo a minha mente voar levada pela sua melodia. Arte é deus que não promete salvação, apenas dá descanso da velocidade do dia. Valeu a pena professa ele a plenos pulmões, e eu.. Eu acredito..

Terça-feira, 13 de Março de 2012

Melancholy

é um lugar familiar, um sítio onde se volta de quando a quando com um triste sorriso, uma gargalhada amarga ou lágrimas felizes. a volúpia de um sonho que deambula pelas ruas vazias mas cheias de memórias. é o infindável correr das águas, o inelutável tempo que se tenta apanhar com o mesmo sucesso com que se agarram nuvens. provam se estes momentos e sente-se o sumo a inundar a boca com um sabor demasiado doce, demasiado quente, enfastioso. é como estar sentado num cinema escuro testemunhando a própria vida a passar. talvez seja um pouco isso a melancolia.

Domingo, 4 de Março de 2012

Aurore Boréale

Levo duas vidas.

Uma está a correr bem, é empolgante, os projectos sucedem-se, o sucesso sorri-me, está sol. Essa está cheia de pessoas e gargalhadas, trabalho e desafios. É uma óptima vida! É uma vida que me desejo e desejaria a toda gente. Nessa vida riu e faço rir. Motivado, motivo outros. É uma vida sem medos e receios insensatos. Cheia de histórias, de conversas, jantares e livros, teatros e passeios. Os amigos acompanham-me nessa jornada e sustenta-mo-nos uns aos outros. O caminho nem sempre é fácil e raramente é claro, mas as escolhas fazem-se e afinal, é isso viver. Nessa vida tenho uma família que amo e que me apoia. Sou incrivelmente sortudo e a única maneira legítima de a agradecer é aproveitá-la e ajudar quando posso outros a terem a minha sorte. Essa é uma.

Outra, vive por momentos, na sombra, longe de olhares, no segredo da minha alma. Essa vem quando lhe apetece. Vem sempre acompanhada do teu sorriso. Toma a forma de um romance do século XIX ou de um daqueles clássicos intemporais, seja de que literatura for. Vem como uma música ou como um debate filosófico. Essa tem vida própria, no entanto, vive dentro de mim. É curioso porque descrevê-la é tão fácil quanto difícil, por mais antagónico e sem sentido que a afirmação pareça. Não a controlo. Pode vir quando está sol ou quando chove. De dia ou de noite. Às vezes é uma carícia perfumada trazida pela brisa, outras vezes é o teu olhar numa paisagem, numa flor, numa árvore. Mas o seu momento preferido é ao final do dia quando o sol aquece a sua última luz. Esse sol lembra-me de ti. Esse sol tem saudades tuas.

l'amitié

nasce-se. é-se. é a primeira ditadura imposta. ninguém escolhe nascer, é-se ipso facto e pronto.
liberdade é uma invenção humana. família também é essa falta de escolha. uns tem mais sorte, outros menos. são condicionantes impostas e não negociáveis.

porém uma escolha é dada, talvez a mais importante. escolhem-se os amigos. claro, dirão muitos, também essa é condicionada, verdade, mas esta é mutável. por demais que seja a circunstância, chega o momento em que a amizade é culpa ou sorte. não tenho a pretensão de pretender a minha amizade como fruto da minha clarividência, sei o papel que a sorte desempenhou. agora disto me gabo, podem invejar-me, tenho sorte.

um dia é uma folha em branco. é tábua rasa. pode-se ser o que se quer num novo dia. qualquer decisão tomada antes pode ficar sem efeito. novo rumo pode ser tomado. alvorada é liberdade absoluta. é um novo dia, uma nova vida. e apesar da circunstância, seja ela qual for, que prazer testemunhar o começo de um novo dia da presença dos que nos são próximos, senão pelo sangue, pelo coração.

há um deleitável prazer em testemunhar o acordar do dia na presença dos que amamos.

Quarta-feira, 15 de Fevereiro de 2012

Noite

Gritos, sangue e espadas a verem a luz do dia, a verem a luz da noite. Fogo, sangue gritos. Quando a paixão da causa se celebra na morte. Quando o frenesim do caos coroa a ambição, quem não desembainharia a espada!? Cobarde sejas que te ajoelhas perante a força que não é tua! Cobarde sejas que deixas a luz da tua liberdade apagar-se pelo vento das trevas, pelo sopro da ignorância! Cobarde sejas..

A vida sofre que se lhe faça acto de devoção com a calma idílica do cenário de alvor primaveril. Quão bonita é a pequena ribeira que canta a sua passagem pelas bermas verdejantes, acariciada pelas ramagens dos chorões. Mas a vida é uma peça a dois tempos. E se há momentos de acalmia, também têm de os haver em que o silêncio é rasgado pelo urro da dor, da violência e da morte. E então a bonita ribeira transforma-se. O seu desfiar esporado pela trovoada levanta ondas zangadas que abatem os salgueiros e conspurcam as beiras de lama e raiva. O bramir ensurdecedor de uma natureza zangada com o Homem e com deus varre em segundos o que demorou vidas a ser. Os clarões existem apenas para o vislumbre da catacumba que se aproxima. Um momento de claridade, mas um momento de claridade fria, azulada, imbuída do terror que causa. A clarividência do fim.

Nesses momentos em que tudo é caos, nesses momentos em que o coração dos valorosos se vela de medo. De Medo, aquele que a criança é a única a reconhecer, limpa de ideias, virgem de recursos, aquele da mais completa impotência. Esse, só, mas completo. Nesses momentos, também se está vivo. E até talvez se esteja mais. Está-se perante a Morte.

Domingo, 22 de Janeiro de 2012

tu

sei que es tu
que serás tu, mesmo que não seja
porque continuo a conversar contigo
a sonhar contigo
amo cada curva da tua silueta

sei porque te vejo
ao longe
reconheço a tua gargalhada entre mil
es fonte do meu saber e da minha ignorância

cada linha que escrevo é inspirada em ti
toda gargalhada que provoco é para te fazer rir
as minhas vitórias são-te dedicadas
quer saibas, quer não

a leitura dos silêncios é difícil
desconheço se as tuas bizarrias
são por o sentimento permanecer
ou apenas por te irritar

sei que provavelmente é impossível
a cultura pop vendeu e ganhou
fez-nos pensar que bastava amar
mas não é suficiente. importante mas não suficiente.

se sair daqui talvez te leve
se ficares talvez me queiras
uma coisa é imutável
o teu sorriso é o mais bonito que já vi

Sexta-feira, 23 de Dezembro de 2011

Manual de instruções

Nascer, Viver, Morrer.

Estou apaixonado. Só ainda não sei por quem.

Bruma

Fria Beleza
candelabros apagados
vento cortante
Fio de ar

Alegrias e Penas
braço ante braço
uma
e depois outra

Sorriso aveludado
lágrima solitária
liso rosto
vela apagada

Bruine

Lugubre beauté
Sous le ciel étoilé
vent coupant et glacé
souffle difficile

Les joies et les peines
mains dans la mains
se succèdent
s'étiolent

Doux sourire
larme amère
joue velouté
la lumière s'éteint

Segunda-feira, 31 de Outubro de 2011

Partilhas de Outre-mer

Aqui tem uma tradução livre de uma crónica de Pierre Foglia publicada no La Presse a 29 de Outubro do presente ano. O texto é uma delícia e o original pode ser encontrado aqui.


Sabem como tenho medo da morte. Claro que sabem, já vos o disse mil vezes. Pois bem, veio-me à cabeça o outro dia um medo ainda maior do que o da minha morte: a morte da minha noiva. Nunca tinha pensado nisso até agora tal estava estabelecido que eu morreria primeiro. Veio-me de repente: e se for ela?
Elle estava a passar o aspirador quando pimba, o aspirador avariou.
Arranja-me a chave-de-fendas.
É ela que diz isso. Eu, na minha vida, nunca disse a ninguém "arranja-me a chave-de-fendas". Meu deus, que faria eu de uma chave-de-fendas? Ela, pelo contrário, di-mo-lo uma ou duas vezes por semana. Nunca fiz as contas, mas tenho quase a certeza do que vou afirmar: esta moça disse-me mais vezes "arranja-me a chave-de-fendas" do que "amo-te".
Vou buscar a chave de fendas à cave.
Não! Não é essa!
Não quero dar-vos uma má impressão da minha noiva. Deviam vê-la quando ela veste o seu vestido azul, é de cortar o fôlego. Mas quando é necessário uma chave-de-fendas de cabeça lisa não é uma chave-de-fendas de cabeça quadrada. Pronto, é assim.
É o da pega vermelha!
Fala-me a cantar, amor! O vermelho, não há que enganar. Demorou dois minutos com o vermelho, vroum, vroum, o aspirador estava como novo. Foi aí que me passou pela cabeça: e se ela morrer? Devo ter ficado com um ar aterrado porque ela parou de imediato o aspirador: 'tá tudo bem?
Eu, sim. Mas e tu? Não vais morrer pois não?
Porque é que dizes isso?
Porque. Como é que iria fazer com o aspirador, e o aquecimento central, para tudo basicamente, ouvi o senhor a dizer-te o outro dia que era necessário não esquecer de pôr óleo no limpa-neves no início do inverno.
Punhas e pronto.
Olha-me esta! E em que sítio?
No outro dia, falhou a luz. Ela não estava em casa. A luz voltou algumas horas mais tarde, mas não tinha água. Disse-lhe ao telefone: não temos água. É normal, explica-me, quando ficamos sem electricidade durante algumas horas, é preciso reiniciar a bomba. 
A bomba? A bomba onde? Temos disso?
Vêem a grande desgraça que seria a minha se ela desaparecesse. E os gatos? São dela, esses gatinhos, para eles só sou uma solução de recurso, um padrasto, não conto de facto. Eles vão ficar de trombas comigo se ela não estiver por cá. Excepto Tonton, Tonton gosta de mim porque lhe dou doritos às escondidas, descobri que ele gostava de doritos.
Resumindo, não paro de lhe perguntar se está tudo bem. Tens a certeza, querida, está tudo bem? Estás um pouco pálida. Ontem à tarde, ela subiu ao telhado para limpar a chaminé. Ou melhor, a chaminé está no segundo telhado, ela chega ao primeiro pela janela do quarto, daí encosta um escadote para subir ao segundo telhado e a partir daí então gatinha até à chaminé.  
'Tás doida, pá?
Tenho sonhos retorcidos. Ontem à noite, sonhei que tinha posto um anúncio para a substituir. O pátio estava cheio de candidatas. Fazia-as passar o teste da chave-de-fendas. Depois, fazia-as experimentar o vestido azul. Até havia um senhor no grupo, Ronald, chamava-se, safou-se com a chave-de-fendas, mas o vestido azul, então aí, oh pá! Nada, nadinha! Demasiado pequeno, demasiado azul, estava ridículo, comecei a rir.
Ris enquanto dormes agora?
É porque estou contente.
Porque é que estás contente?
Porque não estás morta.

Terça-feira, 11 de Outubro de 2011

Hello darkness, my old friend

http://www.youtube.com/watch?v=8mkp-Of8sZQ

Hello darkness my old friend
I've come to talk with you again

And in the naked light I saw
People talking without speaking
People hearing without listening

Fool said how do you not know?
Silence like a cancer grows

But my words like silent drops fell
and echoed in the wells of silence

People bowed and prayed
to the neon god they made.

Segunda-feira, 8 de Agosto de 2011

Haut la main

Cheveux châtains, yeux mordorés aux reflets de sa Méditerranée natale. Vivacité insolente tempérée d'une subtile, mais bien ancrée, pudeur latine. Voix roucoulante aux accents de chaude musique. De la bonace à la tempête en un battement de cils. On ne peut qu'être sensible devant tant de charme. Sa personnalité exhale la chaleur du soleil. Combativité innée, toujours partante, toujours battante, jamais à terre. La fougue des jeunes ans ne saurait être mieux personnifiée que par cette charmante demoiselle. Vivant la ligne qui limite l'insouciance du début de l'âge adulte, de la responsabilité et des ambitions de la maturité, on ne peux qu'être curieux de voir comment cette fleur de femme ira s'ouvrir au monde et si le monde lui retournera sa pétillante gentillesse. Éminemment féminine dans ses faits et gestes, mais pratique quand nécessité fait loi. Voilà un petit bout de femme qui a l'habileté de vous décontenancer d'un revers de main, d'un regard et quelle agréable sensation!


Sexta-feira, 15 de Julho de 2011

Ich bin ein Berliner ou crónicas de uma estadia em Berlin II

Hidratação.

Passear é provavelmente dos actos de ócio mais activos. Mete andar, logo aí, exige um esforço físico estranho ao que será preguiça no seu estado mais gregário. Só que passear, por meter um pouco de exercício à mistura, envolve logo uma necessidade de satisfação das necessidades primárias. Ora bem, beber, todos os livros a especialidade apontam nesse sentido, é bastante importante para a manutenção do estado de vivo. Por oposição à morte, onde aí o contacto com água é mais com a água de rega.

Em Berlim, capital do motor económico europeu, a água, nos cafés perto dos sítios turísticos, é relativamente cara. Paguei 2,50€ por uma água com gás de 500 ml. Só que no processo de hidratação, isso apenas constitui o primeiro acto de um mecanismo biológico cujo término mais comum é a micção. Sendo que tive de pagar 50 cêntimos para passar um torniquete que levava às casas-de-banho, o meu chichi custou-me um total de 3 €. Isto leva-me a concluir o seguinte: a estadia berlinense é mais económica para quem consegue beber muito sem ir à casa-de-banho. E fica muito mais cara às pessoas que precisam de ir várias vezes ao WC depois de beberem apenas uma água. Por outro lado, tratando-se de água com gás, o flato é gratuito. E, julgando pelo odor que exalava nalguns sítios, alemães e turistas, à semelhança dos portugueses, são tarados por borlas. Isto talvez seja um pouco exagerado, todas as grandes cidades são sujeitas a ter odores, mas apeteceu-me pôr isto assim.


P.S. Voltei a ver aqueles olhos azuis, só podiam ser os mesmos, que faróis!

Quinta-feira, 14 de Julho de 2011

Ich bin ein Berliner ou crónicas de uma estadia em Berlin I

A mulher de olhos azuis

A concentração deste tom cromático é deveras impressionante. E há para todos os gostos. Do azul real ao azul turquesa, do verde albino ao ao verde dourado. E é bonito, mas nada que pessoalmente eleve a minha fantasia a sítios antes não alcançados. Excepto no caso adiante exposto.

Sightseeing não tem a mesma conotação que o seu equivalente luso de "ver as vistas", pelo menos não exactamente. Todavia, não consigo encarar turismo ou passeio que não seja pautado por um híbrido vocabulário, que tarda em ser inventado, que conjugue ambas as actividades. E para minha grande felicidade, os arquitectos e as mães do mundo inteiro deixaram monumentos dignos de deliciar a retina de qualquer um em toda à parte deste mundo. Estava à espera de atravessar a rua. A luz dos peões tinha acabado de ficar vermelha. Quando olhando para os veículos que se preparavam para arrancar, rumo ao caminho do destino de cada, tive direito a uma imagem raramente acessível a não ser através da lente de um ou outro realizador mais adepto de um certo tipo de beleza. À frente dos carros estava uma Varadero vermelha e em cima, vestida como uma assessora empenhada, uma mulher. A viseira esta levantada, apenas se via parte da cara, do mais belo moreno, e do mais puro azul, dois olhos. Que visão. So faltava estar de saltos. Se tivesse tido tempo de reacção, ter me ia atravessado no meio da rua, apenas para poder  desfrutar de tão magnífico quadro durante mais tempo. São coisas..